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Hákilla Ábilla Direito Médico

Conselho e ética

Sindicância no CRM: o que é, como funciona e como responder

Entenda a sindicância no CRM: como começa, quanto tempo dura, como fazer a manifestação preliminar e quando ela vira processo ético-profissional.

Por Hákilla Ábilla, advogada de Direito Médico · · 5 min de leitura

Abrir o envelope ou o e-mail do Conselho Regional de Medicina e ler a palavra "sindicância" assusta. Muitos médicos pensam que já estão sendo julgados, outros acham que se trata de mera formalidade e respondem em poucas linhas. Os dois caminhos são arriscados.

A sindicância é uma etapa preliminar, mas é nela que se decide se haverá ou não um processo ético. Entender como ela funciona ajuda a agir com estratégia desde a primeira manifestação.

O que é a sindicância no CRM

A sindicância é um procedimento de natureza investigativa. O próprio Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) diz que ela tem finalidade meramente investigativa, sem necessidade de garantia de ampla defesa e contraditório, que só se tornam plenos se for aberto o processo ético-profissional.

Ela pode começar por:

  • denúncia de paciente, familiar, colega, instituição ou autoridade, que precisa ser identificada (o CPEP não aceita denúncia anônima);
  • ofício, quando o próprio Conselho toma conhecimento de um fato, por exemplo por notícia na imprensa ou nas redes;
  • comunicação da comissão de ética médica do hospital ou do diretor técnico.

Um conselheiro sindicante é designado para analisar os fatos e elaborar um relatório conclusivo, indicando se há ou não indícios de materialidade e autoria de infração ética, com a indicação específica dos artigos do Código de Ética Médica supostamente violados.

Quanto tempo dura

Pelo CPEP, a sindicância tramita no CRM do local do fato por até 90 dias, prazo que pode ser prorrogado uma única vez, por igual período, com autorização da Corregedoria. Na prática, o tempo varia conforme o volume de trabalho de cada Conselho. Esse prazo não inclui eventual tramitação no CFM.

A manifestação preliminar: a peça mais importante da sindicância no CRM

O CPEP admite a manifestação preliminar escrita do denunciado, além da requisição do prontuário e de outros documentos imprescindíveis. Não há oitiva de testemunhas nem perícia nessa fase. Isso significa que, em grande parte dos casos, o conselheiro decide com base no que está no papel: a denúncia, o prontuário e a sua manifestação.

Uma boa manifestação preliminar:

  1. responde aos fatos, de forma objetiva e respeitosa, sem atacar o denunciante;
  2. explica a conduta com base na literatura, nos protocolos e nas condições reais do atendimento;
  3. anexa os documentos que comprovam o que é dito, principalmente o prontuário médico, exames e termos de consentimento;
  4. aponta a ausência de infração, relacionando cada fato ao artigo do Código de Ética mencionado;
  5. evita confissões involuntárias, frases que admitem falhas sem necessidade ou que geram novas linhas de investigação.

O erro mais comum é tratar a manifestação como um desabafo. Textos longos, emocionais ou que criticam o paciente costumam prejudicar. Outro erro é responder sem ler a denúncia com atenção e sem verificar o que o prontuário efetivamente registra.

Possíveis resultados

Depois da análise, o relatório do sindicante vai para a Câmara de Sindicância, que pode decidir por:

ResultadoO que significa
ArquivamentoNão há indícios suficientes de materialidade ou autoria de infração ética
ConciliaçãoAcordo entre as partes, quando pertinente; não pode envolver acerto em dinheiro
Termo de ajustamento de conduta (TAC)O médico se compromete a adequar a conduta; a sindicância fica suspensa por até 180 dias
Instauração de processo ético-profissionalHá indícios de infração, e o caso segue para a fase com ampla defesa
Procedimento por doença incapacitanteQuando há suspeita de que uma condição de saúde afeta o exercício profissional

O TAC não é admitido em casos que envolvam lesão corporal grave, violação à dignidade sexual ou óbito do paciente relacionados à conduta apurada. Se a sindicância for arquivada, o denunciante pode recorrer ao CFM, e o médico é intimado para apresentar contrarrazões.

Se o resultado for a abertura de processo, entenda as próximas etapas no artigo sobre processo ético-profissional.

Cuidados práticos durante a sindicância

  • Não ignore a notificação. A ausência de manifestação faz com que o conselheiro decida apenas com a versão do denunciante.
  • Não procure o denunciante para pedir que retire a denúncia. Além de poder ser visto como pressão, a desistência não encerra automaticamente casos graves.
  • Não altere o prontuário. Envie o documento como está e trate eventuais lacunas na manifestação.
  • Guarde sigilo. O processo ético é sigiloso, e comentar o caso publicamente pode gerar nova infração.
  • Coordene com outras frentes. Se houver também ação judicial, as versões precisam ser coerentes. Veja o que fazer em um processo por erro médico.

Perguntas frequentes

Sou obrigado a ter advogado na sindicância do CRM?

Não é obrigatório, mas é recomendável. A sindicância é decidida principalmente com base nos documentos e na manifestação escrita, e uma peça técnica bem construída pode levar ao arquivamento antes que exista processo.

A sindicância fica registrada na minha ficha do CRM?

A sindicância e o processo ético tramitam em sigilo. Penalidades só passam a constar de forma pública nos casos de censura pública, suspensão ou cassação, após decisão definitiva.

Posso ser punido na sindicância?

Não. A sindicância não aplica penalidades. Ela apenas decide se há indícios para abrir um processo ético-profissional, no qual pode haver punição após a defesa completa.

O paciente desistiu da denúncia. A sindicância acaba?

Pode acabar, mas não sempre. O CPEP permite o arquivamento por desistência, exceto quando o caso envolve lesão corporal grave, violação à dignidade sexual ou óbito do paciente.

Fontes e normas citadas

Conteúdo informativo, atualizado em 3 de novembro de 2026. Não substitui a análise jurídica do caso concreto. Normas e entendimentos dos tribunais podem mudar.